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Digital dá voz e vez ao plus size

14-08-2017 Posted by Comportamento, Todas as categorias 2 thoughts on “Digital dá voz e vez ao plus size”

Tatiane, 37, jornalista, sempre teve uma relação complicada com o próprio corpo. E isso, naturalmente, refletiu de forma negativa em diferentes momentos de sua vida: na escola, com as amiguinhas que a olhavam assustadas com as diferenças; ou no colégio, quando esperava ser paquerada pelos colegas. O primeiro namoro veio só aos 23 anos.

Amanda, 26, estudante de psicologia, conta que teve suas fases “cheinhas” na infância, mas nada que chamasse muito a atenção alheia. Aos 11 anos, as coisas desandaram, segundo ela mesma: em questão de dois anos, chegou a pesar 75 kg e as amigas da mãe já davam “alertas”, na frente dela, sobre como cuidar de seu peso – é uma de suas lembranças mais nítidas. As roupas legais de adolescente nunca serviam. A frustração ganhou seu ponto alto num passeio escolar, quando toda a turma foi passar debaixo de uma árvore e ela não conseguiu, por conta do tamanho.

Ao começar a conversar com a Karol, 35, analista judiciária, ela já manda de cara seu cartão de visitas. “Peso 133 kg e sempre fui fora do padrão”, diz. Ela nasceu com mais de 5 quilos e, por isso, sua luta contra o excesso de peso vem desde o nascimento. Conta que, sozinha, até passava despercebida, mas em grupo, sempre destoou das demais crianças da mesma idade. Sua batalha sempre foi muito difícil e os resultados desastrosos. O chamado efeito sanfona a obrigava a vestir roupas de adulto ainda criança. E adolescente, por fim, não encontrava mais peças que coubessem.

Todas essas histórias reais que você leu acima foram colhidas de forma totalmente espontânea, mas são interligadas por um elemento-foco: a internet. Foi por meio dela que nos conhecemos, conversamos, trocamos ideias e histórias. E foi essa mesma internet que transformou a vida dessas e de milhares mulheres fora do padrão.

Conexão com a autoestima

Cansada do engorda e emagrece, sempre com o engorda em dose dupla, Tatiane passou a entrar em contato com outras mulheres obesas pelas redes sociais. E isso teve uma participação decisiva no resgate da autoestima –mesmo que momentâneo e circunstancial. “Encontrar outras gordas que fossem felizes com seu corpo foi o estímulo de que eu precisava para me aceitar mais, e tratar meu corpo e a mim mesma com um pouco mais de amor. Frequentar bazares e eventos direcionados foi outra inspiração – afinal de contas, onde mais eu veria tanta gorda sorrindo ao mesmo tempo? E até hoje, saio renovada só de encontrar e ouvir as pessoas”.

Apoio nas redes sociais

Foi aos 13 anos que Amanda iniciou sua jornada entre nutricionistas, médicos e psicólogos. Sua primeira dieta, ela lembra, não foi restritiva – focava em aprender a comer melhor e caminhar sempre que possível. Foram 17 quilos eliminados e uma sensação de vitória. Mas a família mudou-se para o interior do estado de Pernambuco e a rotina mudou completamente. Os médicos mudaram, ela descobriu uma tireoidite de Hashimoto e passou a tomar hormônios fortíssimos – nunca mais conseguiu emagrecer e manter-se no peso, desde então.

“A maior parte da minha vida foi sempre oscilando, triste, passando por aqueles momentos de “amigas” dizendo que, se a pessoa é gorda, não tem razão pra comer coisas “não saudáveis”. Vergonha de festas e piscinas, praias, sempre uma dificuldade de achar roupas legais no tamanho e sempre os “meio” elogios, como “você tem um rosto tão bonito, ia ficar gata se emagrecesse” ou “tu é tão bonitinha de rosto, só falta emagrecer” – inclusive da minha mãe. Nunca tive alta autoestima, e essas coisas também em nada me ajudaram”.

Amanda considera uma ironia ter chegado ao estágio plus size saudável e com um bom condicionamento físico. Diz que era sempre espantoso apresentar seus exames para outras dezenas de endocrinologistas e nutricionistas que frequentou nos últimos anos. Depois de sucessivos fracassos, como ela mesma considera, resolveu consultar a internet para descobrir se esse era um problema exclusivo dela.

“Com mais ou menos 15 anos, passei a ler textos feministas, porque achava muita coisa injusta. Um dos blogs que me ajudou muito foi a Lola (já pensei até em escrever pra ela e contar sobre alguns casos de gordofobia que passei na vida), que tinha muito material sobre aceitação. Também sempre tive um gostinho por biologia, então vivia pesquisando como funciona meu corpo, o que também ajudou muito a não aceitar muitas coisas impostas ou muitas críticas infundadas por aqueles que só olham o peso e já vão dizendo besteira. Nas redes sociais, encontrava discursos do tipo ‘você tem que se amar como é’, ‘teu peso não representa sempre tua saúde’, ‘pessoas são diferentes’, ‘organismos funcionam diferentes’. São muitos blogs legais, e sempre tem alguém disposta a expor essas questões”.

Amanda adotou uma política: em sua rotina virtual, evita pessoas preconceituosas e perfis do estilo “vida fit 100%”. Segundo ela, é possível contar nos dedos os que realmente prezam pela saúde física e mental sem ligar pra massa gorda. Ler estas blogueiras, a história de vida dessas pessoas como questão social me ajudou muito porque, até a adolescência, eu era 100% a menina que aceitava todos os xingamentos e acreditava na visão dos outros – ainda tenho isso, mas diminuiu demais e foi uma salvação pra mim”.

A força do ambiente digital

plus size

“O ambiente digital ampliou o acesso a coisas que antes não tínhamos alcance, nem no melhor cenário de otimismo”. Karol sempre se sentia mais confiante a cada vez que perdia um pouco de peso; era inevitável. No entanto, depois de 34 anos, meses e meses em spas, duas cirurgias, dezenas de dietas e muitas sessões de terapia, ela finalmente descobriu que seu peso não era determinante em sua felicidade.

Longe de ser uma ativista, Karol encontrou seus próprios mecanismos de defesa para evitar aborrecimentos com o assunto: ignora solenemente tudo o que diz respeito. “Não vou negar que existem situações nas quais percebo olhares, sorrisos, piadas, e isso me magoa profundamente, mas só naquele momento. Depois, eu passo por cima. Eu não consigo acreditar na ideia de que tenho que me impor, de que tenho que ser aceita. Porque simplesmente não tenho. Sou igual às outras pessoas e ajo como tal. Creio que agir com naturalidade faz com que o meio acabe se adaptando. Sei que o preconceito existe, mas acredito que as minhas atitudes fazem com que o meio acabe percebendo que sou igual, sem que eu precise forçar nada”, relata.

Dados que impressionam

Tatiane, Amanda e Karol são apenas testemunhas dos números do setor de plus size, que não as deixam mentir. De longe, é um dos setores que mais cresce no comércio eletrônico brasileiro, mesmo com todas as crises e maus momentos econômicos. De acordo com o relatório E-bit Webshoppers, publicado em 2015, a divisão de moda e acessórios cresceu 17%, em 2014, movimentando cerca de R$ 150 bilhões. Dentro desse crescimento, 62% dos pedidos foram femininos.

Ainda segundo o mesmo relatório, um dos responsáveis por esses números são os e-commerces de moda plus size, que hoje movimentam aproximadamente R$ 4 bilhões ao ano, com um crescimento médio anual de 6%. A Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), por exemplo, afirma que as centenas de lojas virtuais especializadas no segmento são responsáveis por uma média de 5% do faturamento total de moda no país. Não dá pra desconsiderar! Em 2012, já se estimava que o setor crescesse cerca de 10% ao ano só no Brasil. E já havia mais de 200 lojas especializadas. Hoje, são mais de 300, segundo a Abravest, sendo 60 delas virtuais.

O pessoal do Repórter Unesp chegou a preparar um especial sobre o tema e a selecionar algumas das marcas que trabalham com este universo.

Se o mercado evolui, a razão é óbvia: a demanda. Segundo o relatório “Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe”, da Organização das Nações Unidas, divulgado em janeiro de 2017, mais da metade da população brasileira está com sobrepeso e a obesidade já atinge 20% das pessoas adultas no país.

O sobrepeso em adultos no Brasil passou de 51,1%, em 2010, para 54,1%, em 2014. A tendência de aumento também foi registrada na avaliação nacional da obesidade. Em 2010, 17,8% da população eram obesas; em 2014, o índice chegou aos 20%, sendo a maior incidência entre as mulheres, com 22,7%. Outro dado do relatório é o aumento do sobrepeso infantil. Estima-se que 7,3% das crianças menores de cinco anos estão acima do peso, sendo as meninas as mais afetadas, com 7,7%.

Porém, além dos números da ONU, é impossível ignorar que o setor também ganhou notoriedade e visibilidade pelo meio digital: blogs de moda e comportamento que pregam a aceitação de todos os padrões e biótipos; o fim da obrigação dos padrões preestabelecidos socialmente; e, claro, a autoestima dessas consumidoras, que se ajudam e se completam num nicho diferenciado e muito especial.

A voz nos canais digitais

As blogueiras plus size também são parte importante dessa mudança de comportamento. Cansadas da falta de representatividade em muitos setores, elas “aumentaram o tom” (e o número de cliques). E a identificação foi imediata, especialmente entre o público feminino.

Ju Romano é uma delas. São mais de 62 mil inscrições em seu canal no YouTube, 172 mil seguidores no Instagram e mais de 4 mil no Twitter. E ainda leva em seu currículo um anúncio de energético que deu o que falar ao lado de outro ícone do plus size brasileiro, Flavia Durante – empresária e jornalista, criadora do primeiro bazar especializado em plus size no país e responsável por grande influência digital sobre o tema.

Como já dizia Philip Kotler, Flavia atentou a um mercado cujas necessidades não estavam sendo bem atendidas há anos. Ou eram roupas “de velha”, ou caretas demais ou muito caras. A autoaceitação é o maior tempero para o segmento e se vier bem vestida e adequada, muito melhor.

Sentir ou reconhecer de forma objetiva suas próprias capacidades e realizações – e também das próprias limitações, que se diga – é o segredo para inflar esse mercado específico e, porque não dizer, o meio pelos quais essas informações (e formações) circulam e se propagam. A ausência de autoestima é frequentemente vista, nas discussões psicológicas, como uma característica importante de um distúrbio emocional.

Este movimento é bastante importante sob o ponto de vista da identificação de grupo. As redes, em seu formato e constituição, são hoje o veículo mais poderoso no sentido de divulgar, de projetar conceitos, ideias, percepções.

Em 1992, as psicólogas sociais dos Estados Unidos Riia Luhtanen e Jennifer Crocker desenvolveram até uma medição para o que se classifica de autoestima coletiva – a Collective Self-Esteem Scale (CSES), na qual os respondentes avaliam seu pertencimento grupal geral em quatro subescalas referentes à estima do pertencimento: as avaliações do seu valor como membro do grupo; do valor do grupo; das percepções alheias em relação ao grupo; e, por fim, a importância do grupo para a sua identidade.

Ainda é cedo para mensurar a estima deste pertencimento. O mercado ainda é jovem e desponta – as primeiras notícias em veículos brasileiros sobre o movimento plus size datam de 2012, aproximadamente. Entretanto, essas iniciativas e esse sentimento multiplicado, retuitado, favoritado de ser aceito e aprovado por um grupo ou pela sociedade como um todo são, certamente, os fatores mais louváveis das iniciativas dessas mulheres.

O plus size e o mercado

Mas se a estratégia e o engajamento já funcionam entre as consumidoras, os empresários ainda precisam de atualização e de uma mudança considerável de comportamento e visão de futuro. Ainda é notório o alheamento[ATT1]  dessa parcela do mercado – a que detém e comanda os meios – em relação à realidade das mulheres que, teoricamente, deveriam cuidar e fidelizar.

Público virtual e marcas não andam juntos, pois muitas dessas marcas ainda não desejam associar seus produtos a um padrão que não transmita aspiração ou seja convencional. O preconceito ainda supera (e muito) a visão empresarial, mesmo com os anseios de uma considerável parcela.

Em uma reunião para reformular seu site, por exemplo, certo executivo de uma famosa grife de moda feminina deixou bem claro às arquitetas da informação que contratou: “esse é o nosso público, e não há nenhum interesse em associá-lo a nada diferente disso”. Disse isso ao receber a ideia de diversificação das modelos apresentadas em fotos com suas peças de roupa.

Em alguns casos, há o medo de arriscar, do desconhecido. Já consolidadas, muitas grifes não se importam com a associação, mas têm receios de investir nesse novo mercado, repleto de particularidades. Há diferenças na estratégia de negócios, dizem os especialistas: desde a modelagem, comercialização e até mesmo no ainda restrito número de fornecedores.

Seja como for, é inegável pensar em mudanças no segmento – tanto por parte de quem fornece como para quem compra. As consumidoras desejam, de fato, reforçar positivamente marcas que aderiram à moda, mas, principalmente, precisam aceitar a si mesmas. Ainda há uma boa parcela desse público, frequentando ou não as redes sociais, que não aceita as próprias curvas, nem se orgulha delas.

Empresas do ramo, por sua vez, também precisam aceitar o crescimento inegável desse nicho e dar o braço a torcer para o enorme potencial que ele apresenta. Seja na internet ou fora dela, mais gente consumirá, divulgará os produtos, mais clientes satisfeitas, mais concorrência, preços mais competitivos – essa ainda é uma característica negativa, justamente pelas restrições impostas pelo mercado.

No e-commerce ou no mercado físico, mais importante que a abertura do segmento é a aceitação dele. Precisamos entender os desejos dessas mulheres e as suas histórias para que as experiências futuras sejam, finalmente, de plena satisfação, sem dores, mitos ou fantasmas.

Com reportagem de Juliana Damasceno



Aline Sordili

Aline Sordili, é jornalista com especializações no mercado digital pela New York University e pela Hyper Island. Atualmente, é diretora de desenvolvimento de novos negócios da Record TV, consultora de empresas, professora e palestrante.

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2 thoughts on “Digital dá voz e vez ao plus size”

  1. Mariele Rodrigues disse:

    Sou modelo Plus e advogada, e posso dizer que esse artigo além de claro, reflete muito nossa realidade .

    Parabéns

    1. Helena Sordili disse:

      Obrigada Mariele!

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