Você ainda sabe se comunicar? Tem certeza?

30-05-2017 Publicado por Mercado 0 comentário em “Você ainda sabe se comunicar? Tem certeza?”

Será que você se lembra de quando ainda não era “vc”? Já chegou a pensar no quanto a nossa linguagem mudou? No quanto mudou nossa forma de comunicação com o mundo, com os nossos parentes, amigos, conhecidos, até com as corporações a quem prestamos serviços?

Talvez, e principalmente por isso, as redes sociais ainda não estão ultrapassadas, mesmo num universo que muda a cada segundo. A cada nova plataforma, meio, ferramenta, a nossa maneira de se relacionar também muda. E numa velocidade assustadora. E quando a gente pensa que determinado formato está desgastado, ultrapassado, já está surgindo outro, em algum lugar do mundo, para substituí-lo.

E por que será que a gente sempre acaba caindo nessa? Talvez porque o nosso atributo básico de seres humanos, o ser social, sofre de uma ânsia incontrolável de estabelecer vínculos, relações com outras pessoas – seja na vida pessoal ou na profissional. É o que venho pensando bastante ultimamente, ainda mais quando estou fazendo aulas ou palestras presenciais. Até parece um mundo novo com um monte de pessoas físicas presentes.

Talvez se nos aprofundarmos um pouco mais na compreensão destas relações, desta nova forma de transmissão de ideias, conseguiremos também desvendar estas questões. Este “comportamento de rede”, que criou novas regras, um novo alfabeto, um novo “existir”, nos ajuda ou nos atrapalha na hora de pensar, especialmente, na carreira ou nos negócios?

Língua e linguagem no ciberespaço

Se a gente pensar primeiramente em linguagem, isso nos “teletransporta” de volta lá pra meados de 1990. Naqueles tempos, a língua predominante na internet era o inglês – segundo uma pesquisa publicada pelo jornal The Guardian, por exemplo, a língua nativa constituía cerca de 80% do conteúdo digital. Hoje, frente ao alemão, o francês, o espanhol e o chinês, ela não chega a 30% nesse território imaginário.

Aliás, falando em chinês, vale registrar: entre os anos 2000 e 2010, a presença do idioma cresceu mais de 1200%, segundo dados da Internet World Stats.

O Brasil vem em quinto lugar, entre as línguas mais faladas no mundo virtual – o que não deixa de ser surpreendente, levando em consideração que metade da nossa população ainda não está devidamente conectada (falamos em cerca de 100 milhões, certo?). E, vamos combinar? Portugal inteira não chega aos índices populacionais da cidade de São Paulo.

10 línguas mais utilizadas na internet.

Mas, Aline, pra que essa volta toda? Oras, é bem importante a gente conseguir relacionar linguagem e internet, uma vez que é ela quem faz a sua história e sua experiência virtuais. Ela determina e orienta a forma como você se comporta nas comunidades. Afinal, é bom lembrar que estamos falando da conexão entre pessoas, muito mais do que entre máquinas. E pessoas querem não somente fazer parte, mas principalmente, sentir-se parte deste bolo.

Não basta compartilhar, conversar – é preciso identificação. Na obra “Cumplicidade Virtual” (2013), a psicóloga e jornalista Candice Alcântara aborda esse tema de um jeito bastante didático: segundo ela, a ideia é a de que estejamos dentro desse “riacho” de informações, o tempo todo produzindo, mudando, compreendendo, e não somente estando na periferia ou como coadjuvantes deste movimento.

E essa mudança de comportamento não se resume apenas ao nosso uso pessoal das redes. As empresas, também de acordo com Candice, devem cada vez mais direcionar tempo e recursos para se dedicarem a um canal que os aproxime cada vez mais e mais de seus consumidores. As organizações estão, entre acertos e erros constantes, se preocupando em surfar na onda destas ferramentas, tentando conhecer melhor seus potenciais clientes, seu público, sua audiência. E pra isso, uma infinidade delas também se vê às turras com essa mudança de linguagem – para atingir o maior número de pessoas possíveis e transformando completamente sua essência original.

Você sabe se comunicar?

Será que a nossa essência também vem mudando? Já parou pra pensar nisso? As marcas pensaram e estão nos posicionando cada vez mais neste contexto social. Por exemplo: já ouviu falar em stickers personalizados como emojis? Pois é assim que Disney, Starbucks, Sephora e até o gato Garfield estão direcionando seus orçamentos de comunicação para posicionamento de marca.

Sim, stickers, aqueles adesivos virtuais muito comumente usados no Telegram, Snapchat, Facebook Messenger e Twitter, por exemplo. Aliás, as tais etiquetas customizadas foram a coqueluche para, pelo menos, 250 marcas americanas em 2015. Claro, é uma maneira nova e que dialoga com a linguagem do próprio público sem interferências bruscas. E, ainda, amplia a possibilidade de espalhar sua marca entre os próprios usuários e não por um modelo de publicidade ou broadcast.

A grande barreira – e aí entra um novo desafio comunicacional e de linguagem -, era justamente convencer os usuários a baixarem isto e ainda faturarem alguma coisa com ações como esta, tornando-as realmente lucrativas.

sabe se comunicar

Sticker produzido e disseminado pela marca Burger King.

Apenas para termos uma ideia da dimensão que esse recurso linguístico ganhou ao longo do tempo, em 2015 o termo “Emoji” foi eleito como a palavra do ano por nada mais, na menos que a Oxford Dictionaries.

Foi um primeiro passo, é verdade, tanto para quem consome, quanto para quem adota esse tipo de estratégia. Hoje, por sinal, elas já estão bem mais popularizadas. Mas também já dá pra se ter uma ideia do quanto nossa forma de comunicar-se mudou. Até as nossas simples mensagens mudaram. E veja só: agora, você nem precisa mais baixar um novo aplicativo para obter um novo teclado. Nem mesmo precisa dizer que ama alguém: basta simplesmente mandar uma adorável etiqueta virtual.

Os stickers, os emojis, os símbolos podem impulsionar reconhecimento de marca, receitas, mudar métricas e medições. Porém, como ficam as nossas relações? Também adotaremos tais sistemas para modular se somos realmente aceitos ou queridos? Teremos um índice de ser social para nos indicar um caminho mais eficiente de comunicação com os indivíduos?

Os hábitos mudaram completamente e isso dificilmente será reversível. O que se dá pra tirar de lição de tudo isso é a forma como utilizamos essas tão fascinantes ferramentas de socialização, mas sem esquecer que o comunicar, o interagir, o aprender, o conhecer não foi criado nem reside exclusivamente nelas.

Nossos comportamentos latentes, de fato, evoluem com a máquina. Mas essas novas formas de representação só são saudáveis se agregadas – e não substituídas completamente. Se isso acontecer, acredito sinceramente numa perda de interesse em assuntos fundamentais, delicados, que nenhuma web 2.0 será capaz de transpor. Nosso instinto inato de adaptação nos faz seguir acreditando que a rede já é indispensável, uma necessidade básica humana. Mas é sempre bom lembrar que nada nem ninguém pode suprir o desejo de estar em contato. A gente gira em torno de pessoas. E isso, nenhuma ferramenta tecnológica será capaz de transformar.



Aline Sordili

Aline Sordili, é jornalista com especializações no mercado digital pela New York University e pela Hyper Island. Atualmente, é diretora de desenvolvimento de novos negócios da Record TV, consultora de empresas, professora e palestrante.

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